A Redação / Canoa de Tolda

Elevação inesperada das vazões da UHE Xingó inviabilizam as ações emergenciais de manutenção de flutuabilidade da canoa Luzitânia alagam seu casco alagado e colocam a tradicional e histórica embarcação em situação de risco.

A canoa de tolda Luzitânia, que se encontra em terra na RPPN Mato da Onça desde o final de 2019 (em zona de inundação acima das cotas de nível de vazão de 2.100 m³/s – dois mil e cem metros cúbicos por segundo), foi socorrida nesta madrugada, com a instalação de calços extras de apoio, para evitar seu naufrágio após a inundação de seu casco ainda em reparos.

Na tarde do dia 22, o nível das águas subindo no local de trabalho da Luzitânia. Foto: Carlos E. Ribeiro Jr. / Canoa de Tolda

A subida da vazão para o patamar de 2.700 m³/s forçou a interrupção dos trabalhos emergenciais que garantiriam a flutuabilidade da embarcação que, em razão do encharcamento do casco e zonas de colagem, tem seu quadro qualificado como de grande vulnerabilidade.

O quadro geral da embarcação gera incertezas pois, com as zonas de trabalho inteiramente molhadas, sem possibilidade de prosseguimento das atividades de conservação, não haverá tempo hábil suficiente para garantir a segurança até as elevações de vazão previstas (da ordem de 2.500 m³/s) pelo setor elétrico para o próximo mês.

O evento de alagamento da canoa Luzitânia ocorreu na tarde de ontem (22), em decorrência de uma operação da UHE Xingó (operada pela CHESF – Companhia Hidro Elétrica do São Francisco), quando as vazões defluentes do barramento partiram de uma base de 1.314,53 m³/s (hum mil e quatorze metros cúbicos por segundo) e atingiram o patamar de 2.777 m³/s (a evolução do quadro foi publicada no InfoSãoFrancisco).

Até então, a equipe da Canoa de Tolda estava mantendo seu planejamento de trabalhos emergenciais com base na Carta Circular SOO 014/2021 encaminhada pela CHESF em 27 de agosto passado.

De forma complementar e preventiva, a Sociedade Canoa de Tolda, por iniciativa própria, teve acesso à informações (que não foram devidamente divulgadas para as populações do Baixo São Francisco) tendo como origem a apresentação do ONS – Operador Nacional do Sistema, em reunião promovida pela ANA – Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico em 8 de setembro (onde estavam presentes os principais entes da gestão das águas do rio São Francisco que, mesmo cientes das informações apresentadas pelo ONS não as tornou amplamente públicas) onde temos:

Recorte da apresentação do ONS. Reprodução: ONS.

Ações Emergenciais na Luzitânia

De posse das informações, a Canoa de Tolda imediatamente se engajou na realização das ações emergenciais de recuperação de colagens do casco.
A canoa Luzitânia, desde 2019, se encontra em terra no aguardo de recursos para a realização de ações de conservação. Em razão de altas temperaturas, as colagens do casco sofreram fissuras, o que provocou a perda de estanqueidade do mesmo. Para controlar o problema, foi adotado um processo de reabertura de locais já danificados, para a introdução de adesivo epóxi específico.

Na tarde do dia 21 passado, sem que a equipe engajada tivesse ciência (a única fonte com dados sobre as operações da UHE Xingó é a base de dados do SNIRH – Sistema Nacional de Informações Sobre Recursos Hídricos que permite acesso às vazões instantâneas dos barramentos do São Francisco – sendo as referências as estações 49340080 – UHE Xingó Barramento e 49340100 – UHE Xingó Jusante 1) de que ocorreria aumento considerável das descargas, foi verificada modificação significativa do padrão das vazões que atingiram o ponto máximo de 2.777 m³/s na noite do dia 21, com redução na manhã do dia 22 e estabilização em 2.700 m³/s no mesmo dia.

Na tarde de ontem (22), sem controle da água que adentrava o casco da embarcação, os trabalhos foram suspensos.

Procedimentos de emergência

Para redução de danos e alívio do peso, foi realizada a retirada de todos os equipamentos e itens que se encontravam a bordo da canoa Luzitânia. Tal operação foi iniciada por volta das 16:00 hs, com todo o material sendo retirado da embarcação e acomodado sobre calços e sob cobertura plástica (na zona fronteira da RPPN Mato da Onça) para proteção precária de sol e chuva.

Com a faxina finalizada por volta das 17:20 hs, foi iniciada vigília (acompanhando as vazões através da Hidro Telemetria do SNIRH) que culminou, às 02:00 hs de hoje (23), com manobra de calços sob a canoa para evitar seu naufrágio.

Prejuízos

Ainda sem a contabilização de todos os prejuízos diretos no bem tombado decorrentes do evento (o que será feito após a retirada da embarcação do local ou redução das vazões) temos a considerar:

1- Perda de trabalho realizado, ainda que de forma emergencial (recursos humanos, físicos, financeiros);

2- Para a retomada de trabalhos de conservação, a canoa deverá ser estocada em local seco, protegido, de modo que ocorra a secagem natural de todos os componentes, algo que implica em tempo considerável;

3- Enquanto permanecer alagada, a embarcação estará absorvendo água, implicando em incremento do tempo necessário para sua secagem, além de contaminação de suas zonas internas com lama, organismos.

4- A situação atual significa agravamento do estado da embarcação, que deverá, impreterivelmente, ser completamente desmontada, para revisão profunda e realização de todos os necessários reparos.

A situação atual é grave, onde há, de forma objetiva e inequívoca, o dano a um bem nacional tombado pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, peça única, a canoa Luzitânia.

O órgão foi imediatamente notificado e na mesma ocasião recebeu relatório preliminar sobre os acontecimentos e situação da embarcação.

Veja abaixo as primeiras imagens da Luzitânia (dia 22)

A zona de meia nau e popa, com as colagens emergenciais finalizadas. Foto: Carlos E. Ribeiro Jr./Canoa de Tolda.

A água penetrando rapidamente pela zona da proa e boca da tolda. Foto: Carlos E. Ribeiro Jr./Canoa de Tolda.

Descarregando os equipamentos da canoa. Foto: Carlos E. Ribeiro Jr./Canoa de Tolda.

Gradativamente a embarcação fica vazia e mais leve. Foto: Carlos E. Ribeiro Jr./Canoa de Tolda.

Na boca da tolda é possível ver a subida rápida do nível da água no interior do casco. Foto: Carlos E. Ribeiro Jr./Canoa de Tolda.

A água invade rapidamente toda a embarcação. Foto: Carlos E. Ribeiro Jr./Canoa de Tolda.

Estando a canoa embicada, a água se acumula na proa. Foto: Carlos E. Ribeiro Jr./Canoa de Tolda.

Na tolda vazia, os estrados flutuando. Foto: Carlos E. Ribeiro Jr./Canoa de Tolda.

Com a zona de meia nau para a proa aberta, é impossível o esgotamento da água. Foto: Carlos E. Ribeiro Jr./Canoa de Tolda.

Canoa encharcada, impossível prosseguir, tudo a ser refeito. Foto: Carlos E. Ribeiro Jr./Canoa de Tolda.

◊ Imagem em destaque – A canoa Luzitânia na RPPN Mato da Onça. Foto: Carlos E. Ribeiro Jr./InfoSãoFrancisco.

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