HISTÓRIA | VIAJANTES 

por ETEVALDO AMORIM | QUARTA-FEIRA – 06 de OUTUBRO de 2021

Dentre as várias expedições organizadas pelo Governo Imperial para analisar as possibilidades de melhoria na navegação no rio São Francisco, destaca-se a Comissão Hidráulica.[i] Constituída em 5 de janeiro de 1879, pelo Conselheiro Cansanção de Sinimbu [ii], à frente do 27º Gabinete Ministerial, e comandada pelo engenheiro americano William Milnor Roberts. Dela fazia parte o engenheiro Theodoro Sampaio. [iii]

Tinha, então, vinte e quatro anos, e há apenas dois se formara em Engenharia Civil pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, conhecida como “Escola Central”.

 

Chegou a Maceió, a bordo do vapor Espírito Santo, seguindo para Penedo no Gequiá.

No dia 17 de agosto de 1879, por volta das seis horas da manhã, partia do Penedo, a bordo do vapor Sinimbu, com destino a Piranhas, último ponto do trecho navegável do Baixo São Francisco, “viagem que ordinariamente se faz em dois dias, pousando-se na cidade de Pão de Açúcar, que se alcança antes do pôr do sol.”

Naquele mesmo dia, Sampaio e os demais membros da comissão chegaram a Pão de Açúcar e logo saltaram para conhecer a cidade. Seu relato é breve, mas preciso:

Theodoro Sampaio. Acervo do autor.

“… atravessamos a pé o largo lençol d’areia que a precede e percorremos-lhe as ruas retilíneas, planas, marginadas de edificações humildes e sem elegância. Nenhum edifício notável se descobre, nem mesmo a igreja que, aliás, oferece melhor aspecto vista de longe.”

“Pão de Açúcar não oferece de notável senão a sua paisagem pitoresca, que a montanha cônica que lhe dá o nome aformoseia, e o perfil azulado da serra dos Meirus, duas léguas longe, torna quase encantador. ”

Retornando já tarde ao navio, neste pernoitaram para, no dia seguinte às 7 horas da manhã, “apesar da abundante chuva que caia”, continuar a viagem até chegar a Piranhas às 10 horas.

Três horas depois chegava a Piranhas, que então pertencia ao Município de Pão de Açúcar, sendo a Comissão recebida no porto pelos técnicos que iniciavam a construção da estrada de ferro, chefiados pelo engenheiro Reynaldo Kruger. [iv]

Encontraram ali uma população majoritariamente composta de mulheres e crianças, posto que os homens se achavam distribuídos ao longo da estrada que se construía. E assim se fazia a despeito das péssimas condições topográficas do lugar, deixadas de lago pela forte influência do Conselheiro Sinimbu, alagoano e Ministro do Império, que pleiteou a construção da estrada justamente para mitigar os danos causados pela seca de 1877, cujos efeitos se fazia mais sentir justamente naquele momento.

Esse fato não passou desapercebido a Theodoro Sampaio, que chegava “exatamente na ocasião em que se distribuíam os socorros pela população faminta no barracão próximo à estação da estrada de ferro. O aspecto dessa gente não negava os sofrimentos por que tinham passado. As mulheres e as crianças macilentas e com as roupas em farrapos, assentadas pelo chão, traiam um sofrimento que os primeiros socorros não lograram totalmente extinguir. ”

Após a visita à Cachoeira de Paulo Afonso, Theodoro Sampaio publicou na revista ILUSTRAÇÃO DO BRASIL – Ano II – Nº 14 – 1880, um artigo intitulado:

A CACHOEIRA DE PAULO AFONSO – IMPRESSÕES DE VIAGEM

Não sei, meu amigo, como traduzir-lhe em nossa linguagem, tão pobre e mesquinha, as impressões variadíssimas, os sentimentos desencontrados, que experimentei em face desses abismos extraordinários onde se precipitam as águas volumosas do S. Francisco.

Pão de Açúcar-AL, vendo-se, à esquerda, o “largo lençol d’areia”. Foto Marc Ferrez, 1875.

– A Cachoeira de Paulo Afonso! Quem, no Brasil, não a conhece, mas quão poucos a tem visitado!

É, pois, fácil de compreender com quanto afã, com quanto ardor seguíamos nós através daqueles tabuleiros estéreis, pedregosos, tostados pelo sol abrasador do estio em demanda da famosa catarata.

Esquecíamos tudo: a escassez d’água, a ruindade dos caminhos, a intensidade do calor, e mais que tudo, a “excelência” das cavalgaduras de nossa montada, as mais próprias para curar a monomanias de viagem.

Havíamos partido do porto de Piranhas, onde cessa completamente a navegação do Baixo São Francisco; ganhamos o planalto, e paralelamente a estrada de ferro, agora em construção, fomos pousar depois de dois dias de marcha na Estação da Pedra, quatro ou cinco léguas distante da cachoeira.

Como são tristes estas terras onde o céu não chove, e onde a vegetação, sem viço, jaz perdida e sem conforto!

Já lá vão três anos que a última gota de chuva se desprendeu das nuvens por sobre essas paragens, e até hoje o céu, conquanto nublado, coberto de cúmulos e nimbos prometedores, lá está ainda a negar uma gota de água, a essa terra sequiosa e infeliz. Só o cardo medra nestas paragens inóspitas, e, esguio, viçoso, espinhento e inalterável ergue os braços para um céu indiferente, desapiedado!

Diante de tanta aridez, o povo fugiu. Fugiu ou pereceu toda a criação dos campos, os pássaros, os próprios pássaros sumiram-se, desapareceram também; uma tristeza, uma monotonia esmagadora, imperam por toda parte.

Estrada de Ferro Paulo Afonso km 26, em construção. Foto Ignácio Mendo, 1880.

Tal é o aspecto da região que atravessamos em caminho a Paulo Afonso.

Saímos da Pedra pela manhã, e só depois de quatro horas de péssimos caminhos, avistamos ao longe as planícies onde corre o S. Francisco, de que nos havíamos apartado desde Piranhas.

Que planícies niveladas, que tabuleiros extensos, onde a custo rompem a monotonia alguns serros azuis nos confins do horizonte, alguns outeiros isolados no imenso tapete verde-negro das “caatingas”! Depois o rio, como uma enorme fita prateada, retalhando o horizonte, em meio desaparecendo estão os sítios onde vai formar as cachoeiras. Estas distavam de nós uns três quilômetros apenas, devíamos já ouvir-lhe o bramido atroados das catadupas, e avistar também o nevoeiro denso que se lhe ergue dos abismos. Tudo isto se nos passou desapercebido, por um estado particular da atmosfera.

Chegamos, enfim, apeamo-nos à porta de uma pobre cabana, em cujo alpendre devíamos pernoitar. O guia, morador deste lugar, havia partido horas antes, e só pela noite estaria de volta a seu posto. Resolvemos, pois, examinar os sítios com os nossos próprios recursos, aproveitando o resto da tarde.

Theodoro Sampaio manuseando um teodolito.

As cachoeiras, que são muitas, traíam-se apenas por um rumor surdo. Marchamos contra este ruído, que nos parecia longínquo, paramos para ver o bronze comemorativo da viagem do Imperador, e seguimos além por entre pedras enegrecidas, blocos graníticos arredondados, polidos, reluzentes, ora pretos em seco; mas depois assoberbados pelas águas impetuosas do inverno.

Meia hora depois chegamos ao alto de uma penedia, verticalmente talhada, quase ao nível do tabuleiro. Dir-se-ia que a terra em suas primeiras épocas se retraiu convulsionada, deixando um sulco profundo e estreitíssimo, para onde se despenham as águas do rio.

Do alto desta medonha penedia, 500 metros adiante de nós, precipitava-se no abismo uma bela e volumosa coluna d’água, obliquamente iluminada pelos últimos raios de sol do ocaso.

Apesar das belezas do sítio, senti, entretanto, que se me arrefecia o entusiasmo. A cachoeira que eu havia imaginado, o meu ideal de Paulo Afonso estava muito além do que eu acabava de ver. Para meu consolo, porém, fui logo informado que a queda d’água que acabávamos de visitar era uma das menores, e das menos importantes. A maior, vê-la-íamos amanhã. Caia a noite quando voltamos à cabana.

No dia seguinte, pela manhã, o guia rompia a marcha por entre as pedras e os precipícios do leito posto em seco. Uma hora depois galgávamos um rochedo, de cujo ápice se desfrutava toda a grande cachoeira. Vimos então, numa profunda depressão do granito, rolarem as águas em borbotões de espuma alvíssima, em esplêndido contraste com as lajes negras do fundo. Vimos desde o alto da penedia, onde o rio começa a despenhar-se, até a bacia interior onde refervem as águas em turbilhão, por toda a encosta, por todas as anfractuosidades do rochedo, de 250 palmos de alto, despenharem-se os novelos de espuma, quebrarem-se de encontro às portas de pedra, espadanarem pelas encostas e, rugindo, abismarem-se em vórtice imenso. Por sobre as fauces do abismo, o Ires desdobrava então o seu diadema múltiplo de cores cambiantes.

Quedamos silenciosos diante de tanta majestade! O guia, porém, ergueu a voz, e do peito largo saiu uma dessas interjeições prolongadas, sonoras, misto de admiração, de espanto e de alegria; mas que o bramir das águas sufocou em meio, tornando-a apenas perceptível.

Estrada de Ferro Paulo Afonso, km 3, vendo-se Canindé. Foto Ignácio Mendo, 1880.

Piranhas. Habitações precárias de retirantes e empregados na construção da Estrada de Ferro. Foto Ignácio Mendo, 1880.

Quedamos silenciosos diante de tanta majestade! O guia, porém, ergueu a voz, e do peito largo saiu uma dessas interjeições prolongadas, sonoras, misto de admiração, de espanto e de alegria; mas que o bramir das águas sufocou em meio, tornando-a apenas perceptível.

Alguns dos nossos companheiros eram norte-americanos; outros já haviam visitado a célebre cascata do Niágara, e concordaram todos que a Paulo Afonso, conquanto de tipo inteiramente diverso, é, entretanto, mais volumosa, mais cheia de variedades.

O capitão Burton [v] chama-a “O rei dos Rápidos” (the king of Rapids), apelidando a do Niágara “a rainha das cascatas” (the King of the Falls).

Com efeito, lá, no Niágara, as águas se despenham verticalmente em imenso lençol; aqui, em Paulo Afonso, temos um plano fortemente inclinado por onde se precipitam as águas em gigantesco rápido. Lá, é mais alta a queda, mais pronunciada, mais elegante; aqui, já mais volume d’água, há mais asperezas, mais majestade, mais variedade de sítios.

Cachoeira de Paulo Afonso. Foto Marc Ferrez, 1875.

Tirei o lápis, o meu álbum, companheiro inseparável de viagem, e fazia a largos traços um esboço desse esplêndido conjunto de águas e de penedias, quando senti que já havia ficado só naquele labirinto de pedras. Olhei em torno de mim, não vi viva alma; meus companheiros haviam descido o despenhadeiro, ganhavam a caverna numa das extremidades da cachoeira, percorriam-na em grande parte, e voltarem por sobre precipícios, ora faltando-lhe o equilíbrio, ora margeando nas pontas ásperas do rochedo, feridos os joelhos, o facto rodo e as mãos calejadas.

Voltei, pois, aos meus esboços, concluídos que foram, segui a esmo através daquelas asperezas, e fui deparar com o caminho do dia anterior, quando já assustado me considerava perdido.

Inundado de suor, sequioso porque inacessível era a água do rio nesses sítios, deixei-me cair fatigado sob a copa frondosa do angico, cuja sombra amiga contrastava imenso com a ardência do sol já em seu Zenith.

Duas horas depois prosseguimos em nossa jornada, levando a alma satisfeita e a memória enriquecida de um dos passos mais interessantes da nossa vida. Partimos para Jatobá, onde deviam começar os trabalhos do governo.

Adaptado do livro Terra do Sol Espelho da Lua, AMORIM, Etevaldo Alves. Ecos Gráfica e Editora – Maceió – 2004.

A CACHOEIRA DE PAULO AFONSO – IMPRESSÕES DE VIAGEM, transcrito do ILUSTRAÇÃO DO BRASIL – Ano II – Nº 14 – 1880. Disponível na Hemeroteca Digital Brasileira: http://memoria.bn.br/DocReader/758124/819

Notas e referências do autor 

i – Comissão Hidráulica. Composta pelos engenheiros William Milnor Roberts, Antônio Plácido Peixoto do Amarante, Rodolf Wieser, Domingos Sérgio de Sabóia e Silva, Alfredo Lisboa, Miguel Antônio Lopes Pecegueiro, Tomás de Aquino e Castro, Orville Adelbert Derby e Theodoro Fernandes Sampaio.

ii – João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu (1810-1906). Foi o 22º Presidente da Bahia, de agosto de 1856 a maio de 1858. Foi Senador por Alagoas.

iii – Theodoro Fernandes Sampaio nasceu no dia 7 de janeiro de 1855, na sacristia da capela do Engenho Canabrava, em Bom Jardim, município de Santo Amaro, Estado da Bahia. Sua mãe era Domingas da Paixão do Carmo, escrava do Visconde de Aramaré. Suspeita-se que seu pai seria o sacerdote da igrejinha da Casa Grande do Engenho. No seu registro de óbito consta como pai: Joaquim Fernandes Sampaio. Entretanto, na sua biografia no CPDOC/FGV, consta que é filho, não reconhecido, de Francisco Antônio da Costa Pinto.
Foi casado com Capitulina Maia Fernandes, com quem teve o filho Carlos Theodoro Sampaio e, em segundas núpcias, a 14 de agosto de 1935, com Amália Augusta Barreto, filha do Coronel João José Barreto e Adelaide Augusta Barreto. Participou ativamente do movimento abolicionista, tendo sido sócio-fundador da Sociedade Brasileira contra a Escravidão, entidade fundada por Joaquim Nabuco, em parceria com José do Patrocínio e André Rebouças. Foi Deputado Federal pela Bahia, tendo tomado posse em 02/05/1927. Faleceu no Rio de Janeiro em 15 de outubro de 1937, aos 82 anos de idade.

iv – Reynaldo von Kruger. Engenheiro em Chefe da construção da Estrada de Ferro Paulo Afonso, designado em 1878. Faleceu em Uberaba-MG, aos 84 anos, no dia 25 de julho de 1919. Alemão naturalizado brasileiro, posto que aqui permaneceu por mais de 50 anos de sua vida. Casado com Maria Alves Montes, com quem teve cinco filhos, entre eles Fernando von Kruger.

v – Richard Francis Burton KCMG FRGS (Torquay, 19 de março de 1821 — Trieste, 20 de outubro de 1890) foi um escritor, tradutor, linguista, geógrafo, poeta, antropólogo, orientalista, erudito, espadachim, explorador, agente secreto e diplomata britânico.

NOTA:

Publicado originalmente no Blog do Etevaldo – História e Literatura

O autor

Etevaldo Alves Amorim (Campinas-SP, 29/07/1957). Engenheiro Agrônomo, tem várias obras publicadas: Pão de Açúcar – Cem Anos de Poesia – Coletânea, Maceió: ECOS Gráfica Editora, 1999 (org.); Terra do Sol – Espelho da Lua, Maceió: ECOS, 2004; Freitas Machado: Vida e Obra, Maceió: EDUFAL, 2011. Publicação em periódico: Braúlio x Brayner: A Pena e a Espada, in Revista do Arquivo Público de Alagoas, Maceió: Arquivo Público de Alagoas, ano 2, n. 2, 2012, p. 127-152. Mantenedor do Blog do Etevaldo – História e Literatura: www.blogdoetevaldo.blogspot.com.

Imagem em destaque – Foto de Marc Ferrez. IMS.

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