HISTÓRIA | CULTURA

por FELIPE VIEIRA |sexta-feira – 26 de fevereiro de 2021

Considerada “Meca” para pesquisadores e entusiastas da temática do Cangaço, Piranhas atrai anualmente milhares de turistas que partem do seu porto rumo a Grota do Angico, na margem sergipana do Rio São Francisco, local onde Lampião, Maria Bonita, nove cangaceiros e o soldado Adrião foram mortos em 28 de julho de 1938, encerrando o fenômeno do cangaceirismo no Nordeste. Com vários capítulos, a história do Cangaço na cidade ribeirinha tem atraído, há décadas, a atenção de visitantes para um turismo histórico.

Além da visitação ao “coito” do famoso cangaceiro, anualmente, no mês de julho, é realizado o Seminário Sertão Cangaço. Evento já consolidado no calendário municipal, o seminário reúne historiadores, estudantes universitários, documentaristas e apaixonados pelo tema.

Reprodução: ICMBio

Por outro lado, a cidade ribeirinha é a principal entrada para quem vai visitar os Cânions de Xingó, que segundo se divulga é o quinto maior cânion navegável do mundo[1] e, sem dúvida, colocou o município no mapa turístico do estado e do Brasil. Atualmente, com vários empreendimentos que exploram os passeios ao longo dos 65 km de extensão dessa faixa do Baixo Rio São Francisco é a Gruta do Talhado uns dos pontos mais visitados na margem alagoana.

Para além da importante participação de Piranhas para História do Cangaço e dos impressionantes paredões areníticos dos Cânions, outros eventos e lugares históricos menos badalados, mas igualmente importantes, ficam ofuscados aos visitantes. É importante mencionar que tanto o Distrito de Entremontes como o Centro Histórico de Piranhas são tombados pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional desde 2003[2]. Não é raro um visitante voltar para casa sem saber dessa informação.

Vale uma visita ao Distrito de Entremontes, primeiro ponto de povoamento do território piranhense, ainda no século XVII. A localidade é famosa nacionalmente pelo artesanato de rendas que produz, sendo seu acesso possível, tomando uma pequena embarcação, ou aventurando-se via estrada de terra. Há ainda a possibilidade de realizar o trajeto a pé, pelo Caminho dos Canoeiros, trecho da Trilha de Longo Curso Velho Chico, que faz parte da Rede Brasileira de Trilhas de Longo Curso.

Uma caminhada sem a companhia de um guia de turismo pelo Centro Histórico de Piranhas não dá a oportunidade de melhor contemplar os vários estilos arquitetônicos, as cores e as histórias do casario colonial. Prova disso é a passagem de Dom Pedro II pela cidade em 1859 – registrado pelo Imperador em seu diário

Reprodução: ICMBio

–  evento que é um marco histórico local. O casarão que o recebeu por algumas horas, ainda existe e abriga hoje a sede da Filarmônica Mestre Elísio, os músicos são muito receptivos, vale a pena conhecer o lugar.

Já na praia do porto de Piranhas, uma embarcação descansa no balanço das águas, é a canoa de tolda Piranhas: restaurada há cerca de dois anos pela prefeitura municipal, faz parte do cenário paisagístico da cidade. Em 2016, foi utilizada durante as gravações da telenovela Velho Chico da Rede Globo. No mundo, só restam dois exemplares que, de fato, navegaram pelas carreiras do rio. Além da canoa Piranhas, o outro exemplar ainda sobrevivente, a canoa de tolda Luzitânia, que está sob guarda do Sociedade Socioambiental da Baixo São Francisco – Canoa de Tolda, estabelecida em Brejo Grande/SE, na foz do rio, e na Reserva Mato da Onça, em Pão de Açúcar/AL. A canoa Luzitânia foi tombada pelo Iphan em 2010[3].

Com características estruturais e estéticas singulares, a embarcação típica desse trecho do Rio São Francisco é o fruto final de diversas influências de tecnologias e tradições navais: portuguesas, africanas, orientais, holandesas e nativas, talvez um exemplo único no mundo com tão variadas origens. Passando por várias transformações e usos durante os séculos, a canoa de tolda evoluiu de forma exemplar para realizar o transporte de mercadorias entre as cidades ribeirinhas das margens alagoana e sergipana da foz até Piranhas.

Reprodução: ICMBio

Com o início da navegação a vapor no baixo São Francisco a partir de 1867, as canoas de tolda passaram a dividir caminho com os vapores, vindos de Penedo, que atracavam no porto de Piranhas. Essa cidade sertaneja, a partir da sua integração aos modais aquaviário e ferroviário torna-se importante entreposto comercial, marcando o início da primeira fase de desenvolvimento socioeconômico local. As mercadorias necessitavam alcançar os sertões, e o fluxo logístico tinha que vencer um importante obstáculo natural, as famosas cachoeiras de Paulo Afonso. Com esse intuito, é construída a partir de Piranhas, uma ferrovia de mesmo nome em 1878, com o objetivo de contornar as cachoeiras, baldeando as mercadorias até chegar em Pernambuco, 116 km depois, na antiga Jatobá/PE. Com o funcionamento da linha férrea, temos o início da segunda fase de desenvolvimento local, que perdurou até 1964, quando foi desativada.

O visitante ainda pode conferir vários imóveis históricos preservados que faziam parte do complexo do recinto ferroviário, hoje com suas funções alteradas, sendo eles: a antiga e bela Estação ferroviária, hoje Museu do Sertão; a Torre do Relógio, um dos principais símbolos da cidade, antiga Caixa D’água, hoje café; a antiga oficina das locomotivas, hoje Centro de Artesanato; o antigo armazém de sal, hoje Clube Social e Auditório. Para um olhar mais atento, é interessante observar as ruínas de colunas em pedra, antiga garagem das locomotivas e antiga rotunda das locomotivas, hoje quadra poliesportiva.

A estação ferroviária de Piranhas. Foto: Felipe Vieira

Casario do centro histórico de Piranhas Velha. Foto: Felipe Vieira.

Com o fim da ferrovia e o início dos barramentos hidrelétricos com a construção das usinas de Sobradinho, Paulo Afonso (I, II, III e IV) e posteriormente Xingó, o fluxo do rio é alterado, o que comprometeria a navegação. Os vapores assim como as canoas de tolda, foram paulatinamente entrando em desuso, até se encerrar de vez o aproveitamento fluvial com navegações regulares desse trecho do rio São Francisco entre as décadas de 1960 e 1970.

A construção da Usina Hidrelétrica de Xingó a partir de 1987 traz a terceira fase de desenvolvimento socioeconômico, depois de anos de estagnação. Gerando, na fase de construção, milhares de empregos, provocou o aumento populacional e ocupação do território em torno da barragem. Drástica alteração socioambiental se instala a jusante e a montante, o nível baixo do rio, a falta dos peixes, o leito infértil e antropizado, dentre tantos impactos, mudaram a convivência do ribeirinho com o Velho Chico.

Hoje, importante aparelho turístico da região, a UHE Xingó atrai visitantes não só para sua estrutura faraônica, mas também para seu lago artificial de 65 km de extensão até Paulo Afonso/BA. Formado a partir do barramento do rio, o reservatório é um dos principais acessos ao quase desconhecido MONA São Francisco – Monumento Natural do Rio São Francisco, UC-Unidade de Conservação Federal criada em 2009 como condicionante para a construção da usina.

Entrada do Parque Pedra do Sino, quando em operação, em 2012. Foto: Felipe Vieira

Casarão que hospedou D. Pedro II. Foto: Felipe Vieira.

A UC hoje ocupa um importante papel de proteção do rio e do bioma caatinga, abrangendo segmentos do bioma nos limites dos municípios de Piranhas/AL, Olhos D’água do Casado/AL, Canindé de São Francisco/SE, Delmiro Gouveia/AL e Paulo Afonso/BA. O MONA São Francisco engloba todo o trecho dos famosos Cânions de Xingó, sendo que, em 2018[4] e 2019[5], ficou em 6ª posição entre as 10 unidades federais de conservação mais visitadas do Brasil, recebendo respectivamente no período 658.556 e 713.400 visitantes.

Há ainda o esquecido Parque Ecológico Municipal Pedra do Sino, um outro ponto a ser conhecido. Trata-se do primeiro parque municipal de preservação em área de caatinga do Nordeste[6]. Criado em 2012, está, desde janeiro de 2013, fechado ao público, depois de ter suas estruturas danificadas após uma chuva. O parque que leva o nome da histórica pedra, um afloramento rochoso que se equilibra de forma misteriosa, que foi local de visitação de viajantes ainda no século XIX e de muitas lendas. Por lá estiveram o engenheiro Teodoro Sampaio quando da passagem da Comissão Hidráulica do Império em 1879 e vários viajantes como Hermann Ferschke, alemão que passou nessa região em 1888 e que publicou artigo em seu país com várias ilustrações. Mesmo fechado, vários visitantes caminham por suas veredas numa trilha ecológica ainda existente para conhecer a famosa Pedra, uma potencialidade turística piranhense não aproveitada.

Cartão postal década de 1910. Acervo do autor.

A canoa de tolda Piranhas. Foto: Felipe Vieira.

Por último, não podemos esquecer, o leito ferroviário da já citada e extinta Estrada de Ferro Paulo Afonso, de cerca de 4 km, mas com possibilidades prolongamento, entrega uma trilha ferroviária, conhecida localmente como “trilha do trem”, com paisagens deslumbrantes, de um lado, serras com Caatinga ainda em grande parte preservada e do outro o Rio São Francisco. Resquícios do Patrimônio Ferroviário edificado nesse trecho ainda resiste ao tempo, ao vandalismo e as invasões irregulares, num caminho de trilha de uso comum da comunidade local para caminhadas, passeios de bicicleta e cavalgada, porém desconhecido pela maioria dos visitantes.

Já conhecida nacional e internacionalmente pelos Cânions de Xingó e por sua participação no fim do Cangaço, Piranhas demonstra que ainda possui muitas histórias e lugares a ser melhor conhecidos. Há alguns anos, a cidade aparece entre as cinco mais visitadas de Alagoas, atualmente ocupa a terceira posição. Também em 2018, subiu de D para C[7] na categoria no Mapa do Turismo do Ministério do Turismo.

Esses dados, colocam Piranhas no seu quarto momento histórico de desenvolvimento, o que exigirá novos olhares sobre seus patrimônios cultural e natural além do desbravamento de novos roteiros turísticos, principalmente no contexto pós-pandemia.

Notas e referências

1 http://g1.globo.com/se/sergipe/noticia/2012/02/passeio-pelo-rio-sao-francisco-e-atracao-no-canion-de-xingo.html
2 Inventário Nacional de Bens Imóveis: Sítios Urbanos Tombados. Edições do Senado Federal, vol. 82. Brasília: IPHAN, 2007.
3 http://canoeadetolda.org.br/o-baixo-sao-francisco/a-canoa-luzitania/
4 http://www.icmbio.gov.br/portal/ultimas-noticias/20-geral/10216-visitacao-em-parques-nacionais-bate-novo-recorde-em-2018
5 https://www.icmbio.gov.br/portal/ultimas-noticias/20-geral/11139-ucs-federais-registram-15-milhoes-de-visitas-em-2019
6 http://www.meioambiente.al.gov.br/sala-de-imprensa/noticias/2012/07/primeira-unidade-de-conservacao-municipal-da-caatinga-no-ne-esta-aberta-a-visitacao
7 http://www.sedetur.al.gov.br/noticia/item/2094-mtur-reconhece-crescimento-economico-de-cinco-municipios-alagoanos-por-meio-do-turismo
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O autor

Felipe Vieira é trilheiro das caatingas, pesquisador da história ferroviária do Baixo São Francisco e historiador formado pela UFAL – Universidade Federal de Alagoas. Também criou e mantém o blog História Sertão.

Imagem em destaque – Litografia alemã da Pedra do Sino. Séc. XIX (via autor)

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